WCS Brasil

Conservação do Sauim de Coleira (Saguinus Bicolor) em Manaus

Professor Marcelo Gordo, Universidade Federal do Amazonas

Projeto Sanguinus logo 

O projeto

A perda e a fragmentação de hábitat estão entre os principais problemas para a conservação da biodiversidade. A fragmentação de ambientes afeta de diferentes maneiras diferentes grupos da flora e da fauna, podendo gerar perda de diversidade, alterações na composição das comunidades, mudanças de densidade populacional, invasão de espécies oportunistas e interferência no fluxo gênico. Podendo agir negativamente sobre espécies ou grupos mais especializados em determinados ambientes ou recursos e positivamente sobre espécies generalistas e invasoras (Laurence & Bierregaard, 1997; Bierregaard et al., 2001; Rambaldi & Oliveira, 2005).


Figura 1. Exemplar de Saguinus
bicolor, o sauim-de-coleira.

Os Callitrichidae há muito são conhecidos por suas tendências e eficiência em colonizar ambientes florestais perturbados e marginais (Eisenberg, 1978; Garber 1980; Sussman & Kinzey, 1984). Em termos gerais, preferem a vegetação densa dos estratos mais baixos da vegetação de habitats perturbados e periféricos, onde predam insetos, especialmente ortópteros (Ferrari, 1993). Mas mesmo os calitriquídeos, que muitas vezes se comportam como espécies oportunistas e colonizadoras de ambientes alterados e fragmentados (Ferrari, 1993), podem sofrer sérios problemas com a fragmentação, isolamento e degradação dos ambientes, por fragmentar e isolar populações, reduzindo o número efetivo destas e muitas vezes submetendo-as a condições ambientais sub-ótimas (ver revisão em Cerqueira et al, 2005).

Com a diminuição da área disponível para uma certa população, em função da fragmentação e perda de habitat, o número total de indivíduos tende a diminuir, por mais que, em alguns casos, a densidade populacional aumente. Com isso, o risco de extinção local aumenta, pois inúmeros fatores provocam oscilações naturais no tamanho das populações que, no caso de populações pequenas, podem ser decisivas. Alguns trabalhos estimando a viabilidade de populações (Populações Mínimas Viáveis - PMV) de diferentes grupos taxonômicos concluíram que vertebrados precisam de populações com milhares de indivíduos para serem viáveis em longo prazo (Shaffer et al., 2002; Reed et al. 2003; Reed & Hobbs, 2004). Populações nesta faixa de tamanho já são típicas de algumas espécies de primatas neotropicais, que vêm sendo seriamente afetados pela fragmentação e perda de habitat em diferentes biomas (Chiarello & Melo, 2001; Ferrari et al., 2003; Rambaldi & Oliveira, 2005), incluindo o Saguinus bicolor (observação pessoal).

Tal fragmentação associada à contínua exploração provoca uma série de transformações nos processos e funções ecológicas da floresta remanescente (ver Shafer, 1990), incluindo a interrupção do fluxo gênico entre populações remanescentes. antes contínuas, reduzindo a variabilidade genética da metapopulação (Martin & von Segesser, 1996).  A grande importância da conservação dos parâmetros genéticos tem como base a manutenção da aptidão e da capacidade em responder às mudanças ambientais (Franklin, 1980; Frankel & Soulé, 1981; Hedrick, 1996; Lynch, 1996;  Moritz, 2002). Ou seja, a perda da variabilidade genética ou alterações aceleradas dos parâmetros genéticos em geral, podem diminuir a capacidade de uma população responder às mudanças e pressões ambientais.

Com a expansão da fronteira agrícola, da pecuária e da exploração madeireira, a floresta Amazônica vem sendo perdida ou transformada em um mosaico de fragmentos e áreas alteradas num ritmo alarmante (Fearnside, 2005). Das onze espécies de primatas amazônicos presentes na Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (Machado et al., 2005), pelo menos seis são afetadas principalmente pela perda e fragmentação das florestas.

Entre elas está o sauim-de-coleira, Saguinus bicolor (Figura 1), alocado à categoria de Ameaçado na Lista Vermelha da IUCN (IUCN, 2008) e Criticamente Ameaçada na Lista Brasileira de Espécies Ameaçadas (Gordo, 2008). Ao contrário da maioria das espécies do gênero, que é distribuído ao longo de grande parte da bacia amazônica e áreas vizinhas do noroeste da América do Sul (Emmons, 1997), S. bicolor tem distribuição geográfica extremamente reduzida, sendo endêmico à região de Manaus (abrangendo parte dos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara).

Sua distribuição é limitada a oeste pelo rio Cuieras e rio Negro, ao sul pelo rio Amazonas, ao leste pelo rio Urubu e ao norte estendendo-se aproximadamente 50 Km do limite sul da distribuição (rio Amazonas) (Figura 2). Os primeiros levantamentos mencionam a presença de S. bicolor a leste do rio Urubu, tendo como barreira o rio Uatumã (Hershkovitz , 1966, 1977; Ayres et al, 1980, 1982; Egler, 1983). Numa revisão mais recente, Subirá (1998) e Röhe (2006) sugerem que houve uma redução na distribuição original, que fica limitada atualmente pelo rio Urubu.  Sugerem ainda que essa redução esteja sendo causada por competição com Saguinus midas, espécie parapátrica com distribuição ampla ao leste do rio Negro, que é uma hipótese levantada anteriormente por Ayres et al (1980).

A destruição e fragmentação da floresta na área de ocorrência de S. bicolor são as principais ameaças à preservação da espécie, principalmente na área urbana de Manaus e ao longo das estradas que irradiam desta área (Figura 2). Regiões com grandes densidades humanas representam uma ameaça especial às espécies ameaçadas (Harcourt &. Parks, 2003) em virtude da intensificação dos fatores negativos associados à fragmentação.

Projeto Sanguinus map
Figura 2. Distribuição geográfica de Saguinus bicolor.

Manaus está crescendo de forma acelerada e desordenada, e perdeu mais da metade de sua área verde nos últimos dez anos. A vegetação dos fragmentos remanescentes é intensamente explorada (para madeira, frutos, cascas, etc.), e a fauna caçada. Os sauins-de-coleira sofrem com atropelamentos, choques em redes elétricas, ataques por animais domésticos, maus tratos e capturas por moradores da matriz urbana no entorno dos fragmentos.  É comum encontrarmos grupos de S. bicolor sobrevivendo em fragmentos extremamente degradados e de tamanho reduzido (entre dois e dez hectares), ou seja, com área e qualidade abaixo do que parece ser necessário para a manutenção de um grupo saudável (Egler, 1986, observações pessoais).

Existem apenas dois estudos mais detalhados sobre a ecologia da espécie. Egler (1986; 1991a,b, 1992, 1993) monitorou um grupo social em um fragmento de mata secundária de Manaus, enquanto o outro trabalho (Vidal, 2003; Vidal & Cintra, 2006) avaliou a influência de variáveis na estrutura da floresta sobre parâmetros demográficos da população de S. bicolor residente na floresta contínua da Reserva Ducke, a norte de Manaus. Alguns trabalhos sobre comportamento, manejo e interações sociais foram realizados com animais em cativeiro (ver revisão em Wormell, 2000) e apenas um trabalho sobre ecologia cognitiva foi feito recentemente acompanhando apenas um grupo (Azevedo, 2006).

De maneira geral, as informações existentes são insuficientes para gerar subsídios confiáveis e definitivos para o manejo e a conservação das populações remanescentes da espécie. Com o objetivo de fornecer tais subsídios, desde 1999 uma equipe liderada pelo Professor Marcelo Gordo, da Universidade Federal do Amazonas vem desenvolvendo estudos sobre genética, ecologia e comportamento de grupos que se encontram isolados em fragmentos florestais e também em matas contínuas.  Entre 2002 e 2004 foi desenvolvido o projeto "Estudos de ecologia e genética para a conservação do macaco Saguinus bicolor" (Projeto Sauim-de-Coleira), com apoio do PROBIO (Ministério do Meio Ambiente) - edital de espécies ameaçadas, 2001.  De 2004 até o início de 2009 o Projeto Sauim-de-Coleira teve apoio do FNMA (Ministério do Meio Ambiente) e diversos Zoológicos europeus e do Philadelphia Zoo (USA), WCS – Brasil e CI - Brasil. Estes estudos estão sendo imprescindíveis no fornecimento de subsídios para o manejo e conservação desse animal.

O projeto já gerou resultados valiosos para a conservação da espécie (Gordo et al., 2002), e uma análise preliminar de parâmetros genéticos (Santos, 2005) indicou um desequilíbrio nas populações isoladas há mais tempo. Temos registros e mapeamentos de muitos grupos que estão isolados em quintais ou em minúsculos fragmentos, havendo a morte de vários indivíduos por atropelamento, ataques de cães, fome, eletrocutados em fios de alta tensão e até mesmo mortos por moradores.  Alguns desses fragmentos isolados que abrigam grupos de sauins foram acompanhados em anos anteriores, notando-se a redução clara no número de indivíduos.
             

Present Goals and Objectives

O Projeto Sauim-de-Coleira tem como meta levantar informações pertinentes para a conservação do primata Saguinus bicolor (Callitrichidae) e implementar ações emergenciais para resgatar indivíduos e grupos em iminente risco de desaparecimento.

Temos os objetivos de:

  1. Estimar as densidades populacionais de S. bicolor em áreas florestais importantes, devido suas extensões ou potencial transformação em Unidades de Conservação;
  2. Estimar as populações e respectivas densidades dentro das Unidades de Conservação já existentes, avaliando o status de conservação destas unidades, possibilitando uma discussão sobre a efetividade da proteção à espécie em cada uma;
  3. Realizar um levantamento fundiário preliminar dessas áreas mais relevantes para podermos traçar medidas de ação mais específicas para cada caso; e
  4. Realizar o resgate ou monitoramento de grupos de sauins que estão em fragmentos florestais urbanos que serão total ou parcialmente desmatados para a construção de conjuntos habitacionais, avenidas, etc.


Referências Bibliográficas

GORDO, M . Saguinus bicolor. In: Angelo Barbosa Monteiro Machado, Gláucia Moreira Drummond, Adriano Pereira Paglia.. (Org.). Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção. 1 ed. Brasília: MMA, 2008, v. 2, p. 750-751

MAIA DA SILVA, F ; NAIFF, R ; MARCILI, A ; GORDO, M. ; DAFFONSECANETO, J ; NAIFF, M ; FRANCO, A ; CAMPANER, M ; VALENTE, V ; VALENTE, S . Infection rates and genotypes of Trypanosoma rangeli and T. cruzi infecting free-ranging Saguinus bicolor (Callitrichidae), a critically endangered primate of the Amazon Rainforest. Acta Tropica, v. 107, p. 168-173, 2008.
 

Contato

Wildlife Conservation Society Brasil - WCS Brasil
Rua Jardim Botânico 674/sala 210
Rio de Janeiro, RJ 22461-000 Brasil
Pone/Fax: (+55) (21) 2259-2989
Email: wcsbrasil@wcs.org

 

 

 

Copyright 2008-2010 by Wildlife Conservation Society Política de Privacidade Termos de Uso